SXSW

A nova era do healthcare tem um nome: democracia

Como as novas tecnologias estão trazendo o poder para a mão do paciente

zeroberto

Se eu tivesse que resumir em uma palavra para onde estão apontando as tendências em healthcare aqui no SXSW, eu diria: democracia. Hoje temos um sistema de saúde que se mostra cada dia mais obsoleto. Complicado, de difícil acesso e caro – no qual o paciente, a maior parte interessada, é justamente quem tem menos poder.

O sistema de saúde atual foi desenhado em uma época em que as principais demandas eram de urgência. Mas a tendência irreversível da nossa sociedade é justamente o contrário: cada vez mais demandas crônicas, que dependem de acompanhamento e não de um atendimento pontual.

As barreiras para o paciente começam logo na logística: boa parte dos pacientes faltam à consulta por dificuldades de se locomover até o consultório. Na palestra “It’s Like Uber for Healthcare”, uma executiva do Uber, juntamente com um médico e um empresário, discutiram como facilitar a locomoção dos pacientes. O próprio Uber tem um case bem-sucedido de vacinação contra a gripe, levando enfermeiras para fazer a aplicação direto na casa das pessoas. E porquê não fazer o contrário? Houve controvérsia nesse ponto, o médico acreditando que não há profissionais suficientes para atender essa demanda. Certamente um ponto a discutir.

Escalabilidade é um dos grandes problemas do sistema. Imagine só a quantidade de pessoas se locomovendo todos os dias para consultas, atendimentos emergenciais, exames, demandando uma estrutura física, hospitais, consultórios, médicos, que recebem esse volume insano de pessoas – muitas, mas muitas vezes, para descobrir que é só um resfriado, ou uma virose. Dá pra fazer de um jeito mais inteligente?

Na palestra “Embrace Digital Disruption to Reinvent Healthcare” foram discutidas diversas alternativas para o atendimento primário, usando inteligência artificial para dar suporte a enfermeiras que fazem uma triagem de pacientes e orientações simples para diagnóstico de disfunções leves que não necessitam de atendimento presencial. Já na palestra “Euthanizing our Global System of ‘Sick Care’”, a solução apresentada para esse problema foi o uso mais intensivo das ferramentas mobile, talvez o aparelho mais acessível à grande maioria da população.

No final das contas, essa discussão toda tem três grandes desafios: 1) como tornar o cuidado com a saúde mais conveniente?; 2) como tornar o cuidado com a saúde mais acessível? E 3) como manter as pessoas saudáveis?

Obviamente, todas as apresentações foram muito responsáveis em não questionar o papel do médico no sistema – as soluções tecnológicas podem vir para ajudar o seu trabalho, mas não para substituí-lo. Mas certamente vão mudar seu dia-a-dia: 50% das tarefas que um médico faz hoje não vão mais ser feitas no futuro, mas outras certamente surgirão. Na palestra “A #)$%(*% Crisis: Training the Newest Gen of Docs”, a discussão girou em torno de como todo esse cenário está mudando o perfil dos médicos do futuro. Antigamente, um bom médico tinha que ter um perfil metódico, estudioso, rigoroso. Uma das médicas citou o quanto teve que decorar guidelines e fórmulas na faculdade. Hoje, os guidelines estão online. Talvez estejamos à espera de uma geração de médicos cuja principal habilidade seja criar relações com o paciente – e navegar nesse complexo ambiente que é a cabeça de uma pessoa.

Afinal, saúde é totalmente sobre comportamento. Como você cuida dela, o que você faz no dia-a-dia e como você lida com as consequências das suas escolhas. Democracia é sobre você ter mais direitos, mas também mais responsabilidades sobre o que acontece à sua volta. Incluindo, veja só, cuidar da sua saúde. Todo poder ao povo – mas com responsabilidade.