SXSW além do hype tecnológico
Uma edição marcada por algumas palavrinhas: inclusão, diversidade, empoderamento, propósito e autenticidade
Em ano de delegação brasileira recorde no SXSW, todo o mercado está de uma forma ou de outra conectada com Austin nos próximos dias. Em meio a toda a animação e expectativa da energia avassaladora do evento, é impossível não notar que esta será uma edição um tanto peculiar. Além das esperadas discussões sobre a tecnologia da vez (novamente AI e VR tem um espaço colossal na programação) e todo o hype das sessões sobre inovação, startups e afins, é uma edição marcada por algumas palavrinhas que passam longe da questão tecnológica: inclusão, diversidade, empoderamento, propósito e autenticidade. Todos estes aspectos estão direta ou indiretamente relacionados a discussões políticas e parte desta guinada se deve ao efeito Trump. A curadoria do Festival incluiu sessões específicas sobre o impacto das ideias “Trumpianas” em todos os aspectos relacionados à inovação – da presença de artistas de países banidos pela nova lei da Imigração à intervenção pública no avanço da tecnologia dos carros autônomos.
Mas não é só isso. Além do aspecto político stricto sensu, o que o espaço que estes temas tomaram nesta edição nos diz é que não existe inovação sem diversidade, passando pela busca do propósito (pessoal e corporativo) e culminando na palavra-chave para se conectar com as novas gerações: autenticidade.
Adam Grant, keynote speaker do Interactive e um dos pensadores mais influentes do mundo atualmente, não fala sobre novas técnicas de gestão ou sobre como “vencer” nos negócios. Seus best-sellers “Originals: How Non-Conformists Rule the World” e “Give and Take: Why Helping Others Drives Our Success” falam sobre os desafios da inteligência emocional com foco no coletivo e no impacto positivo na sociedade. Ele também está escrevendo um livro em parceria com Sheryl Sandberg, COO do Facebook e autora do excelente Fazer Acontecer (apesar do título breguinha, é um ótimo livro para as mulheres que querem entender as dificuldades de se trabalhar em uma indústria marcada pelo machismo). O livro discorre acerca de resiliência, essa qualidade tão fundamental em tempos de mudanças.
Jessica Shortall, keynote do programa Convergence, foi uma das diretoras nos anos de formação da TOMS, marca conhecida por seu excelente casamento entre ativismo e comunicação. Ela vai apresentar seu trabalho e ideias para transformar Texas em uma comunidade aberta ao público LGBT, em uma inovadora plataforma data-driven.Kesha também vai estar lá, mas não estará falando sobre seu novo álbum e sim sobre “como as mulheres podem ocupar espaço e se empoderar em suas vidas”.
Entre discussões sobre renda universal, “Como empoderar um bilhão de mulheres até 2020” e o “poder do propósito nos negócios e na vida”, que aprendizado podemos trazer para nosso mercado de comunicação e gestão de marcas? O desafio fundamental de gerir marcas é ler o ambiente e a cultura e transformar em mensagens pertinentes relacionadas ao universo da marca, certo?
Pois bem, o que a curadoria do Festival nos mostra neste ano é algo que no mínimo já suspeitávamos: o Zeitgeist atual vibra na frequência de quem acredita em usar seus talentos, recursos e criatividade para impactar o mundo de forma positiva. E esta é uma abordagem bem mais madura do que somente “marketing de causa”, muitas vezes nascido de um desejo de “greenwash”. A grande ironia deste movimento é que não é possível dar o truque. Tem que ser real. A marca tem que realmente estar imbuída de propósito, ser coerente, viver a diversidade em todos os aspectos de sua atuação, buscando de fato um impacto positivo no mundo. Porque o consumidor…opa, falar consumidor já é algo que não combina com este novo mundo, vamos começar de novo…Porque as PESSOAS (especialmente a nova geração ultraconectada) sentem a autenticidade das marcas como –dizem- os cachorros farejam o medo. Talvez a famosa revolução digital tenha sido apenas a antessala desta que é a verdadeira revolução: a busca por autenticidade que inevitavelmente é um retorno ao fundamental, ao propósito e ao coletivo. E ao buscar a visão do propósito para marcas, nada mais fica no lugar.