SXSW

A lebre e a tartaruga foram ao SXSW

"E aí, o que você aprendeu lá em Austin que a gente possa aplicar aqui na agência?"

Fabio Simões

FCB Brasil 15 de março de 2017 - 12h03

“As filas estão impossíveis!”, “as palestras não são nada demais”, “Vamos nos encontrar no Driskill?”. Se você está aqui em Austin, e fala português, estas são as frases que você mais deve ter ouvido por aqui.

Sim, as filas estão maiores que no ano passado, que estavam maiores que nos outros anos, mas também existem mais venues e muito mais palestras onde sobram lugares. Sim, existem aquelas palestras que você vai querer sair no meio porque o assunto não é tão interessante quanto o título ou é mais um daqueles painéis onde ninguém consegue completar um pensamento. Então claro, vamos nos encontrar no Driskill mais tarde depois de passar lá na INTEL e pegar umas bebidas de graça. Austin é legal mas não dá para comparar com a Riviera e o Driskill não é o Carlton.

Eu realmente espero que esta não seja uma descrição da maioria das pessoas da nossa indústria que está aqui porque se for vai confirmar uma tese que já vem sendo explorada algum tempo, a de que no formato atual estamos condenados a obsolescência.

Um dos grandes temas discutidos neste ano aqui em Austin foi a automatização das notícias usando Inteligência Artificial, machine learning e Big Data. Shailesh Prakash, o CTO do Washington Post falou sobre a série de ferramentas que eles estão usando para coletar dados, analisar e rankear noticias, criar artigos e comparar a performance deles através de diversos filtros. Muitas dessas iniciativas foram estimuladas pela nova cultura implementada desde a entrada do Jeff Bezos no jogo sempre estimulando a inovação e a convivência saudável com o risco, segundo ele você sempre deve fazer esta pergunta: “Is this a one way door? Because if it isn’t we can always go back.”

New York Times, Associated Press, Vice, BBC, Refinery29, CNN, Buzzfeed além dos Facebooks e Googles são só alguns dos veículos que vieram palestar neste ano e mostrar como uma indústria condenada pelo digital pode se reenergizar através do uso da tecnologia.

Hoje, apesar dos óbvios desafios da queda no faturamento da publicidade no papel e da competição dos gigantes do Silicon Valley (Apple, Facebook, Google), existem claros sinais de que apesar de mais enxutos os tradicionais veículos de noticias vão sobreviver através dessa reinvenção.

E quanto a nós, os publicitários? Sim nós estamos aqui assistindo a alguns keynotes mas decepcionados porque não fomos ‘iluminados’ pelas grandes palestras e os grandes pensadores que iriam nos mostrar a solução e o futuro. Alguns riram com Casey Neistat, foram inspirados pelo Corey Richards mas o que vamos falar quando nos perguntarem: “E aí, o que você aprendeu lá em Austin que a gente possa aplicar aqui na agência?”

Este ano você poderia contar nos dedos o número de palestras dadas por agências de publicidade e eu garanto que você não teria nenhum problema em entrar em nenhuma delas. O mais perto que chegamos do sucesso foi ver Jeff Goodby entrevistar Nick Denton, o criador do falecido Gawker. Nós podemos ignorar o fato de que estamos nos tornando ultrapassados e irrelevantes e voltar para o calor da Riviera ou podemos realmente aprender um pouco com essa realidade.

Passamos o ano nos olhando no espelho em todos os eventos do mercado, nada contra eles, acho importante como inspiração e reconhecimento mas eles não são nem de perto o suficiente para voltarmos a sermos reconhecidos como inovadores, liderando o mercado e não só vivendo das glorias do passado.

Sempre fomos as lebres do mercado de comunicação: rápidos no pensamento, meteóricos no crescimento na carreira, o mercado onde os jovens criativos sempre se degladiavam para entrar pois era o caminho mais rápida para fama e grana. Estamos muito longe dessa realidade hoje e se os jornais eram as tartarugas nessa corrida: antigas, lentas e ultrapassadas, hoje são eles que estão acelerando contra a obsolescência.

Sim, devemos sim continuar vindo para o SXSW para ouvir, aprender e ter a nossa curiosidade atiçada mas se não acordarmos para o fato que temos que aprender, testar e arriscar novos modelos todos os dias nosso destino vai ser o mesmo da lebre: “Era uma vez…”